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quinta-feira, 25 de agosto de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
“Mineirinho”, de Clarice Lispector
"É, suponho que é em mim, como um dos
representantes de nós, que devo procurar por que esta doendo a morte de um
facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram
Mineirinho do que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava
sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o
mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações
contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas
revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido
na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era
perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se
fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva
de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: 'O que eu sinto não
serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho
certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que
muita gente que não matou'.
Por que? No entanto a primeira lei, a que
protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha
maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me
deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um
alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o
quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o
coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no
décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu
irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. Porque eu
quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio,
humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os
sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro
dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor,
guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que
embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida.
Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos
acordem, e com horror digo tarde demais - vinte e oito anos depois que
Mineirinho nasceu - que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei
que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes
é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos
for preciso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um
homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e
vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou
o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o
que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente - não nas
conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou
conta. Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do
outro para não corrermos o risco de nos entendermos. Para que a casa não
estremeça. A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão
da esperança, pousando sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e
fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem e enfim se enchessem de
lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem
os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa
pura e cheia de desamparo e Mineirinho - essa coisa que move montanhas e é a
mesma que o faz gostar 'feito doido' de uma mulher, e a mesma que o levou a
passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em nós é
tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão
de vida que se for pisado se transforma em algo ameaçador - em amor pisado;
essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal, é a mesma que em mim faz com
que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque, também eu,
sei o que é sede; e também eu, não me perdi, experimentei a perdição. A justiça
prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos
mais divinos; se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porquê adivinhamos
em nós a bondade, aquela que vê o homem antes de ele ser um doente do crime .
Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que um homem pode
ser o pai de outro homem. E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja
porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não resistirá à primeira ventania
que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho
viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. Foi fuzilado na sua força
desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às pressas
a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as
paredes de minha casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos
não me justificarão, mas meus inimigos que são os meus cúmplices, esses me
cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à
imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que os outros furtivamente
fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer. Tudo isso, sim, pois
somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não
entender.
Porque quem entende desorganiza. Há
alguma coisa em nós que desorganizaria tudo - uma coisa que entende. Essa coisa
que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele
roubou e matou; e fica muda diante do S. Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma
coisa muita séria em mim fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa
alguma coisa é o assassino em mim? Não, é o desespero em nós. Feito doidos, nós
o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de rádium se incendiara. Mas só
feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida
que tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso
compreender, e como doido é que sinto o amor profundo, aquele que se confirma
quando vejo que o rádium se irradiará de qualquer modo, se não for pela
confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem
de destruição. Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com
oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que
todos temos que falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana
já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que
um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se
olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e
por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro
homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de
fuzilamento. Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e
que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem
querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um
longamente guardado. Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo
morto um inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram
se tornando as palavras que me fazem dormir tranquila, mistura de perdão, de
caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno".
Atividade
1) Explique a distinção entre as classes sociais implícita no texto.
2) Há religiosidade presente no texto de Clarice Lispector. Explique esta afirmação.
3) Explique qual teria sido a intenção da autora ao descrever os tiros que alvejaram Mineirinho.
4) Por que a autora diz que deve ser sonsa?
5) Explique o significado da palavra casa tal qual a autora a utiliza.
6) Leia.
Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma
coisa que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos
O que seria esta coisa? Justifique.
7) A autora faz referências a diferentes tipos de justiça. Que justiças são essas? Justifique.
8) Explique o último período do conto.
Angustia - Anton Tchekhov
(1886).
A quem confiar minha tristeza?
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boleia, sem se mover. Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação
Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz. - Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo... O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boleia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
É preciso contar como o filho adoeceu, como padeceu, o que
disse antes de morrer e como morreu... É preciso descrever o enterro e a ida ao
hospital, para buscar a roupa do defunto. Na aldeia, ficou a filha Aníssia... É
preciso falar sobre ela também... De quantas coisas mais poderia falar agora? O
ouvinte deve soltar exclamações, suspirar, lamentar... E é ainda melhor falar
com mulheres. São umas bobas, mas desandam a chorar depois de duas palavras.
(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também ideia de tristeza, aflição
Atividade
1) Justifique o título deste conto.
2) Descreva Iona relatando o maior número possível de características.
3) Relacione as características do ambiente com a Angústia de Iona.
4) Explique o que simboliza o filho perdido para a vida de Iona justificando com argumentos apresentados no conto.
5) “na boleia, Iona parece sentado sobre alfinetes”.
Cite motivos pelos quais o narrador faz tal comentário.
6) Defina com palavras os sentimentos de Iona. Justifique cada palavra que você escolheu.
7) É possível perceber uma clara diferenciação entre as classes sociais no conto. Explique esta afirmação e comprove sua resposta com passagens do texto.
8) Qual era a “sede” de Iona?
Crepúsculo vespertino. Uma neve úmida, em grandes flocos, remoinha preguiçosa junto aos lampiões recém-acesos, cobrindo com uma camada fina e macia os telhados das casas, os dorsos dos cavalos, os ombros das pessoas, os chapéus. O cocheiro Iona Potapov está completamente branco, como um fantasma. Encolhido o mais que pode se encolher um corpo vivo, está sentado na boleia, sem se mover. Tem-se a impressão de que, mesmo que caísse sobre ele um montão de neve, não consideraria necessário sacudi-la... Seu rocim está igualmente branco e imóvel. Graças a sua imobilidade, à angulosidade das formas e à perpendicularidade de estaca de suas patas, parece mesmo, de perto, um cavalinho de pão-de-ló de um copeque. Seguramente, ele está imerso em meditação
Não pode deixar de meditar quem foi arrancado do arado, da paisagem cinzenta e familiar, e atirado nessa voragem, repleta de luzes monstruosas, de um barulho incessante e de gente correndo...
Faz muito tempo que Iona e seu rocim não se mexem do lugar. Saíram de casa ainda antes do jantar, e, até agora, não apareceu trabalho. Mas, eis que a treva noturna desce sobre a cidade. A palidez das luzes dos lampiões cede lugar a cores vivas e a confusão das ruas torna-se mais barulhenta.
- Cocheiro, para a Víborgskaia! - ouve Iona. - Cocheiro!
Estremece e vê, através das pestanas cobertas de neve, um militar de capote com capuz. - Para a Viborgskaia! - repete o militar. - Está dormindo? Para a Víborgskaia!
Em sinal de consentimento, Iona puxa as rédeas, e a neve cai em camadas de seus ombros e do dorso do cavalo... O militar senta-se no trenó. O cocheiro faz ruído com os lábios, estende o pescoço à feição de cisne, ergue-se um pouco e agita o chicote, mais por hábito que por necessidade. O cavalinho estica também o pescoço, entorta as pernas, que parecem estacas, e desloca-se com indecisão...
- Onde vai, demônio?! - ouve, logo depois, Iona exclamações partidas da massa escura de gente, que se desloca em ambos os sentidos. - Para onde te empurram os diabos? Mantenha-se à direita!
- Não sabe dirigir! Olha a direita - zanga-se o militar.
O cocheiro de uma carruagem solta impropérios; um transeunte, que atravessou a rua correndo e chocou-se com o ombro contra a cara do rocim, lança um olhar rancoroso e sacode a neve da manga. Na boleia, Iona parece sentado sobre alfinetes e aponta com os cotovelos para os lados; seus olhos tontos perpassam pelas coisas, como se não compreendesse onde se encontra e o que está fazendo ali.
- Que gente canalha! - graceja o militar. - Eles se esforçam em chocar-se contra você ou cair embaixo do cavalo.
Combinaram isso.
Iona volta-se para o passageiro e move os lábios...
Sem dúvida, quer dizer algo, mas apenas uns sons vagos lhe
saem da garganta.
- O quê? - pergunta o militar.
Iona torce a boca num sorriso, faz um esforço com a garganta
e cicia:
- Pois é, meu senhor, assim é... perdi um filho esta semana.
- Hum!... De que foi que morreu?
Iona volta todo o corpo na direção do passageiro e diz:
- Quem é que pode saber! Acho que foi de febre... Passou
três dias no hospital e morreu... Deus quis.
- Dá a volta, diabo! - ressoa nas trevas uma voz. - Não está
mais enxergando, cachorro velho? É com os olhos que tem que olhar!
- Anda, anda... - diz o passageiro. - Assim, não chegamos
nem amanhã. Mais depressa!
O cocheiro estica novamente o pescoço, ergue-se um pouco e
agita o chicote, com uma graciosidade pesada. Depois, torna a olhar algumas
vezes para o passageiro, mas este fechou os olhos e parece pouco disposto a
ouvir. Depois de deixá-lo na Víborgskaia, pára diante de uma taverna,
encurva-se sobre a boleia e fica novamente imóvel... A neve molhada torna a
pintá-lo de branco, juntamente com o rocim. Decorre uma hora... outra...
Três jovens passam pela calçada, fazendo muito barulho com
as galochas e trocando impropérios: dois deles são altos e magros, o terceiro é
pequeno e corcunda.
- Cocheiro, para a Ponte Politzéiski! - grita o corcunda,
com voz surda. - Damos vinte copeques... os três!
Iona sacode as rédeas e faz ruído com os lábios. Vinte copeques são um preço inadequado, mas,
agora, pouco lhe importa o preço... Tanto faz seja um rublo ou cinco copeques, contanto que haja
passageiros... Empurrando-se e soltando palavrões, os jovens acercam-se do trenó e sobem para
os assentos, os três ao mesmo tempo. Começam a discutir a questão: dois deles irão sentados, e quem vai ficar de pé?
Depois de uma longa troca de insultos, manhas e recriminações,
chegam à conclusão de que o corcunda é quem deve ficar de pé, por ser o menor.
- Bem, faz o cavalo andar! - grita com voz trêmula o
corcunda, ajeitando-se de pé e soprando no pescoço de Iona. - Dá nele! Que
chapéu você tem, irmão! Não se encontra um pior em toda
Petersburgo...
- Hi-i... hi-i... - ri Iona. - Assim é...
- Ora, você assim é, bate no cavalo! Vai andar desse jeito o
tempo todo? Sim? E se eu te torcer o pescoço?
- Estou com a cabeça estalando... - diz um dos moços compridos.
- Ontem, em casa dos Dukmassov, eu e Vaska(2) tornamos quatro garrafas de
conhaque.
Não compreendo para que mentir! - irrita-se o outro moço
comprido. - Mente como um animal.
- Que Deus me castigue, é verdade...
- Tão verdade como um piolho tossindo.
- Hi-i! - ri Iona entre dentes. - Que senhores alegres!
- Irra, com todos os diabos!... - indigna-se o corcunda. -
Você vai andar ou não, velha peste? É assim que se anda? Estala o chicote no
cavalo! Eh, diabo! Eh! Dá nele!
Iona sente, atrás de si, o corpo agitado e a voz trêmula do
corcunda. Ouve os insultos que lhe são dirigidos, vê gente, e o sentimento de
solidão começa, pouco a pouco, a deixar-lhe o peito. O corcunda continua os
impropérios e, por fim, engasga com um insulto rebuscado, descomunal, e desanda
a tossir. Os moços compridos começam a falar de uma certa Nadiejda Pietrovna.
Iona volta a cabeça para olhá-los. Aproveitando uma pausa curta, olha mais uma
vez e balbucia:
- Esta semana... assim, perdi meu filho!
- Todos vamos morrer. - suspira o corcunda, enxugando os
lábios, após o acesso de tosse. - Bem, bate nele, bate nele! Minha gente,
decididamente, não posso continuar andando assim! Esta corrida não acaba mais?
- Você deve animá-lo um pouco... umas pancadas no pescoço!
- Está ouvindo, velha peste? Vou te moer o pescoço de
pancada! Não se pode fazer cerimônia com gente como você, senão é melhor andar
a pé! Está ouvindo, Zmiéi Gorínitch(3)? Ou você não se importa com o que a
gente diz?
E Iona ouve, mais que sente, os sons de uma pancada no
pescoço.
- Hi-i... - ri ele. - Senhores alegres... que Deus lhes dê
saúde!
- Cocheiro, você é casado? - pergunta um dos compridos.
Eu? Hi-i... que senhores alegres! Agora, só tenho uma
mulher, a terra fria... Hi-ho-ho... O túmulo, quer dizer!... Meu filho morreu,
e eu continuo vivo... Coisa esquisita, a morte errou de porta... Em vez de vir
me buscar, foi procurar o filho...
E Iona volta-se, para contar como lhe morreu o filho, mas,
nesse momento, o corcunda solta um suspiro de alívio e declara que, graças a
Deus, chegaram ao destino. Tendo recebido vinte copeques, Iona fica por muito
tempo olhando os pândegos, que vão desaparecendo no escuro saguão. Está
novamente só e, de novo, o silêncio desce sobre ele... A angústia que amainara
por algum tempo torna a aparecer, inflando-lhe o peito com redobrada força. Os
olhos de Iona correm, inquietos e sofredores, pela multidão que se agita de
ambos os lados da rua: não haverá, entre esses milhares de pessoas, uma ao
menos que possa ouvi-lo? Mas a multidão corre, sem reparar nele, nem na sua
angústia... Uma angústia imensa, que não conhece fronteiras. Dá a impressão de que,
se o peito de Iona estourasse e dele fluísse para fora aquela angústia, daria
para inundar o mundo e, no entanto, não se pode vê-la. Conseguiu caber numa
casca tão insignificante, que não se pode percebê-la mesmo de dia, com muita
luz...
Iona vê o zelador de uma casa, carregando um embrulho, e
resolve travar conversa.
- Que horas são, meu caro? - pergunta.
- Mais de nove... Por que você parou aqui? Passa!
Iona afasta-se alguns passos, torce o corpo e entrega-se à
angústia... Considera já inútil dirigir-se às pessoas. Mas, decorridos menos de
cinco minutos, endireita-se, sacode a cabeça, como se houvesse sentido uma dor
aguda e puxa as rédeas... Não pode mais.
"Para casa", pensa, "para casa".
E o cavalinho, como se tivesse compreendido seu pensamento,
começa a trotar ligeiramente. Uma hora e meia depois, Iona está sentado junto
ao fogão grande e sujo. Há gente roncando em cima do fogão, no chão e sobre os
bancos. O ar é abafado, sufocante... Iona olha para os que dormem, coça a
cabeça e lamenta haver voltado tão cedo para casa...
"Não ganhei nem para a aveia", pensa. "Daí
essa angústia. Uma pessoa que conhece o ofício... que está bem alimentada e tem
o cavalo bem nutrido também, está sempre calma..."
Num dos cantos, levanta-se um jovem cocheiro, funga,
sonolento, e arrasta-se para o balde d'água.
- Ficou com sede? - pergunta Iona.
- Com sede, sim!
- Bem... Que lhe faça proveito... Pois é, irmão, e eu perdi
um filho... Está ouvindo? Foi esta semana, no hospital... Que coisa!
Iona procura ver o efeito que causaram suas palavras, mas não vê nada. O jovem se cobriu até a
cabeça e já está dormindo. O velho suspira e se coça... Assim como o jovem quis beber, assim ele quer falar. Vai fazer uma semana que lhe morreu o filho e ele ainda não conversou direito com
alguém sobre aquilo... É preciso falar com método, lentamente...
"É bom ir ver o cavalo", pensa Iona. "Sempre
há tempo para dormir..."
Veste-se e vai para a cocheira, onde está seu cavalo. Iona
pensa sobre a aveia, o feno, o tempo... Estando sozinho, não pode pensar no
filho... Pode-se falar sobre ele com alguém, mas pensar nele sozinho, desenhar
mentalmente sua imagem, dá um medo insuportável...
Está mastigando? - pergunta Iona ao cavalo, vendo seus olhos
brilhantes. - Ora, mastiga, mastiga...
Se não ganhamos para a aveia, vamos comer feno... Sim... Já
estou velho para trabalhar de cocheiro... O filho é que devia trabalhar, não
eu... Era um cocheiro de verdade... Só faltou viver mais...
Iona permanece algum tempo em silêncio e prossegue:
- Assim é, irmão, minha egüinha... Não existe mais Kuzmá
Iônitch... Foi-se para o outro mundo...
Morreu assim, por nada... Agora, vamos dizer, você tem um
potrinho, que é teu filho... E, de repente, vamos dizer, esse mesmo potrinho
vai para o outro mundo... Dá pena, não é verdade?
O cavalinho vai mastigando, escuta e sopra na mão de seu
amo... Iona anima-se e conta-lhe tudo...
(1). Versículo de um canto da Igreja Russa.
(2). Diminutivo de Vassíli.
(3). Nas lendas russas, um dragão que repreeenta o mal. No entanto, o nome Gorínitch dá também ideia de tristeza, aflição
Atividade
1) Justifique o título deste conto.
2) Descreva Iona relatando o maior número possível de características.
3) Relacione as características do ambiente com a Angústia de Iona.
4) Explique o que simboliza o filho perdido para a vida de Iona justificando com argumentos apresentados no conto.
5) “na boleia, Iona parece sentado sobre alfinetes”.
Cite motivos pelos quais o narrador faz tal comentário.
6) Defina com palavras os sentimentos de Iona. Justifique cada palavra que você escolheu.
7) É possível perceber uma clara diferenciação entre as classes sociais no conto. Explique esta afirmação e comprove sua resposta com passagens do texto.
8) Qual era a “sede” de Iona?
terça-feira, 1 de março de 2016
Nova crônica: Não “tá” tranquilo nem favorável.
No caminho de casa vindo do trabalho me deparei com uma cena
deprimente e comum na periferia da minha cidade e de qualquer outra em nosso
país. Nesta cena eu vi um garoto sentado em uma pilha de tijolos na calçada de
uma construção há tempos paralisada.
Você deve estar se perguntando: “O que há de deprimente?”
Penso que aquele rapaz não deveria estar ali. Com aquela aparência tão repetida
entre aqueles garotos que estão ao nosso redor àqueles trajes que parecem um “cyclone”
de cores, lateral da cabeça raspada e um olhar entorpecido.
Talvez o mundo onde vivemos tenha o oportunizado esta vida a aquele rapaz e a tantos outros. A minha infelicidade é tão grande quanto a minha indignação de saber que esta cena é frequente.
Talvez o mundo onde vivemos tenha o oportunizado esta vida a aquele rapaz e a tantos outros. A minha infelicidade é tão grande quanto a minha indignação de saber que esta cena é frequente.
Nossos jovens têm passado cada vez mais seus dias da mesma
maneira, agindo como Zombies durante grande parte do dia, frequentando escolas
desprovidas de recursos e investimentos por poucas horas e a vida toda dando
murros em ponta de faca.
Neste baile que o enorme “fluxo” de jovens têm bailado
perdem-se não só perspectivas, mas também vidas que são deixadas na pista por
vezes pelas mãos daqueles que deveriam nos proteger e em outras vezes pelas mãos
de seus pares. Nesta pista onde o ritmo repetitivo e carente de mensagem toca
em altos volumes vidas são concebidas sem qualquer tipo de estrutura para
recebê-la, mas ainda sim são comemoradas como dádivas do senhor, milagres da
vida que logo estarão largadas a própria sorte. Não porque tem culpa de algo,
mas porque estão entregues em mãos que não tem muito mais idade que elas.
A que interessa tal situação? Um bando de meninos incapazes
de lidar com a vida, incapazes de dizer: Não! E analfabetos desempregados. Meninas
mães de outas meninas e meninos. Será que a culpa é da mídia? Das famílias? Das
multiplicadas religiões? Ou nossa?
Independente de julgarmos um culpado devemos aprender que a
solução é um dever de todos e um trabalho para cada um, pois neste “passinho”
que nossos jovens têm marchado eles serão levados a uma situação que certamente
não “tá” tranquila nem favorável.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Exemplo de crônica: O bloco dos sem partido.
Nesta manhã me perguntaram: “Qual
é o sei partido?” Confesso que fiquei um tanto sem ação, pois nos últimos fico
ficado descrente com a atual situação política do nosso amado país.
Quando olho para a esquerda vejo
uma porção de problemas que precisam vir à tona, e LÓGICO, serem esclarecidos e
punidos e quando olho para a direita vejo os mesmos defeitos, porém, mas,
aparentemente, deste lado tenho a visão ofuscada por alguém ou algo que tenta
cobrir a minha visão e de tantos outros brasileiros. No meu caso isso não funciona,
mas e dos meus compatriotas?
O que pensar de um país partido
em dois? Para que lado correr? Estou cada vez mais convencido de que o meio
termo é a melhor saída, mas não um meio termo daqueles que nos faz sentir-se em
cima do muro, sem uma opinião formada. Mas o que eu quero é um meio termo que
seja a distinção entre esquerda e direita, algo diferente destes moldes que nos
são oferecidos.
Nesta avenida em que a mídia nos
convida ao protesto eu não quero passar e atrás do trio elétrico para onde a “situação”
nos puxa decidi não pular. Quero muito um modelo novo, uma nova fantasia, mesmo
que para isso seja necessário abandonar antigas alegorias que nos travam de
fronte a concentração e não nos deixa adentrar a avenida.
Vou começar aqui assim,
sozinho, quem sabe assim no carnaval,
pois é como dizem “um folião puxa o outro” e “atrás do bloco dos sem partido só
não vai quem já morreu”.
Prof. Eduardo Coelho.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
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